CANTIGA DE NINAR AMOR NERVOSO

Saturday, March 31, 2012

Pretendo revelar pra ela em breve
O amor que escondo de seu entendimento
Estou arquitetando as circustâncias
Sufocando as minhas instâncias
Em caixinhas de cimento.

É bem difícil ter a paz em mente
Quando se tem o coração pinel
Discreto, eu penso em ser paciente
Mas o peito é insolente
Ama e faz um escarcéu.

(Aquieta, sentimento turbulento
Não posso tremer tanto e sem parar,
A goma no cabelo é resitente
Mas a suada é corrente
Pinga na flor que eu vou dar.)

Se tudo ocorrer como vislumbro
Minha vida de suspiros chega ao fim
Eu largo esse sopro tão sofrido
E à noite, o bafo ouvido
É o arfar de amá-la em mim.

ACIDENTAL

Thursday, November 24, 2011

Escrevi.
Dois ou três versinhos
Pra lembrar-me de quem sou.

Não deu.

Na tentativa, no entanto,
No acaso, não sei bem
Eis que surge um velho encanto
Digo, novo... não sei bem.
Velhos versos, peito em prosa
Nova a forma do meu bem
Velha a febre e a pele rosa
Novas letras que eu sei bem.
Ah! E acho que amo!

Não queria, juro, dar-te amor assim, mal embrulhado.

Toma, leva
Dois ou três versinhos
Pra lembrar-se de quem sou.
Amanhã eu volto, espera,
Preparado, decorado
Com mais versos na lapela.
Meu nome anunciado pelo vento
Que adentra, remelento,
Na manhã da tua janela.

POP

Tuesday, March 29, 2011

I want to blur your sight with the fume of my sighs

Essa língua me encrespa a boca. À princípio achei que tinha futuro, já que o inglês é molenga, macio; meu inglês sóbrio me lembra o meu português ébrio. Mas não.

Calm your breath and pace your patience

Não.

Aqui eu me sinto um pouco manco da boca. Coxo da língua. E pra piorar, torci o pé.

Tie your thighs around my words

Me… ncomplete.

Logo mais vou sair voando. Explico:

“As ideias são feitas de ar quente e vapor.”

Cada vez que tomo ar pra expressar o que me passa na cabeça e o inglês não se encarrega do transporte, fico mudo, ar suspenso, represado dentro de mim.

Vou subir feito balão que o vento leva, puxa, gira, lambe leve até que -

203

Tuesday, March 15, 2011

Só mais uma brisa leve
Que não sopra, nem abala
Só mais uma água rala
Que não limpa e nunca ferve.

Serve para um por enquanto
É o que cabe por agora
Chiste, pra passar a hora
Feito pra chamar de encanto.

Talvez no marasmo nosso
Bem no fundo, oculto, eu posso
Encontrar algo que preste.

Caso isso não aconteça
Talvez eu desapareça;
Eu e a falta que me veste.

ACALMACALMARIA

Monday, February 21, 2011

Cabe e sobra aqui na palma
A paz da minha alma
A calma acalmaria não.
O peito empunha essa tormenta
A dor que impacienta
Acalma; a calmaria não.

ADEUSCADABRA

Tuesday, August 03, 2010

A desgraça da Marcinha foi amar um mágico. Não precisava, mas amou.
Conheceu o rapaz na festa de fim de ano da empresa. Marcinha era uma secretária bilíngüe de gerência, aspirante a secretária bilíngüe de diretoria ou, por que não, secretária bilíngüe de presidência. Seu trabalho não era muito emocionante: limitava-se a bons dias e good mornings, confecção de cartas e requests, às vezes com toques de phone calls de abroad. Mas era só. E era pouco.
Marcinha prometia todos os anos, entre a festa da firma e o réveillon, que, ao fim de suas férias coletivas, ela pediria demissão. Ou melhor, causaria a sua demissão. Com o dinheiro do fundo de garantia e das férias proporcionais, ela partiria em férias sensacionais em busca de um novo objetivo. Descobriria sua nova razão de viver e teria a vontade e o capital necessários para começar a nova empreitada. Mas sempre acabava ficando por lá mesmo, atrás de sua desk e waiting pelo telefone to ring. Ficava.
Eis que na festa da firma deste ano último, quando começava a elaborar o seu plano de metas pessoais para o ano seguinte, um mágico desevaporou-se bem na sua frente.
POF! Fumaça. Mágico. Aplausos. Pareciam , ao ouvido de Marcinha, a marcha nupcial tocada por uma noite de chuva. Era amor à primeira materialização. Marcinha se apaixonou perdidamente pela atração da festa.
Desnecessário e um tanto constrangedor dizer que o que aconteceu dali para frente foi... mágico. O show começou. Ao fim do primeiro ato, Marcinha e o mágico já trocavam telefones; ao fim do segundo ato, tomaram seu primeiro drinque; ao fim do terceiro ato, Marcinha já havia feito amor com o rapaz (ela não se priva por causa de conservadorismos); ao fim do quarto ato ele a pediu em casamento e, logo depois do Grand Finale, Marcinha foi demitida, pegou o que lhe era de direito trabalhista e os dois partiram num tapete voador em lua-de-mel.
Marcinha assumiu a vida de primeira dama da magia; concomitante com a carreira promissora de assistente de palco. Deu todo o seu dinheiro ao mágico e eles começaram uma multinacional de efeitos sobrenaturais. O marasmo, reinante em tempos que já pareciam distantes demais para serem lembrados, deu lugar a um sem fim de atividades profissionais emocionantes. A ajudante de palco bilíngüe foi splited pela metade, floated sem o help de fios aparentes, cuidou de coelhos and pombos, foi colocada inside uma box e teve arms e pernas embaralhadas diante dos eyes da perplexa audience. E como a vida não é feita só de trabalho, ao fim o expediente, Marcinha e seu mago iam do palco direto pro quarto. E Marcinha era splited pela metade, floated sem o help de fios aparentes, misturada a coelhos and pombos, amada inside uma box e tinha seus arms e pernas embaralhadas e beijadas diante de seu mágico e nobody else. Marcinha não tinha do que reclamar.
E nunca teve. Não deu tempo. Numa dessas noites de performance no quarto, o mágico evaporou-se no meio de um truque.
POF! Fumaça. Vazio. Lágrimas. Marcinha se viu sozinha, cartola na cabeça, o corpo suspenso e nu, a boca ainda aberta do beijo desaparecido. Ficou assim por exatos seis segundos, até se esvair o ar mágico que sustentava Marcinha acima da cama. Ela caiu sobre o colchão, quicando duas vezes.
Acontece. Tem coisa sobre a qual ninguém avisa a gente. Não por mal, mas é que algumas coisas parecem ser inéditas no mundo e cabe a nós estrear esse sofrimento. Marcinha foi a primeira mulher a sofrer de amor de mágico. Foi a primeira a aprender:


Amor de mágico é assim:
Agora você vê;
Now you don`t.

NOSTRAORGIA

Friday, July 16, 2010

Não sei se pela água feita do suor
que escorre, exorcizando as impurezas.
Ou se pelos gritos e calúnias repetidas
que me enchem a boca e esvaziam
o peito. Ou pelos flagelos
singelos, me punindo
a pele ouriçada. Ou se é o calor
que me rodeia, que me purga
dos pecados que eu deixei
de cometer.

Mas nada
me lava mais a alma
que a
Santidade
de um
amor imundo.

 
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