PERDI

Thursday, July 09, 2009

Acontece que a poesia não rasteja
Sobrevoa
Observa, longealada
Meu nariz riscar o chão.

VALSINHA NO LUGAR

Wednesday, June 17, 2009

Eu não sei
Se é a dor que não se faz passar
Ou se é o medo que me faz pensar
Melhor eu sigo se eu ficar aqui.

Não
Já digo não
Não traga as minhas frases preferidas
Não cante a solidão
Não rabisque meus ouvidos

Eu sei que a chuva cai
Eu sei que a nuvem vem ficar de vez
Pra onde eu corro, cai
E a fuga, nessa água, se desfez

Eu pensei
Que eu teria um lugar pra ficar
Mas não sabia que esse tal lugar
Se afogaria pra fugir de mim.

Estar sozinho dói
Sobrou-me a Ilha de Semaisninguém
Mesmo curando, dói
Pois abandono é o que mais se tem

Sim
Sei que é assim
Sempre disseram pra querer bem pouco
Mas eu não via fim
Pro meu querer atrevido

Hoje eu sei
Que o que me perde é o meu caminhar
Não há mais nada pra se procurar
Melhor eu sigo se eu ficar aqui.

TODO O PROBLEMA MORA NA MINHA GOTEJANTE PERDA DO ROMANTISMO

Thursday, May 14, 2009

Porque é do mais notório e público saber
que, por mais que outros venham dizer
num excesso de boa fé e de inocência,
não existe (e, perdoe essa certeza
que machuca quando bate mas
ajuda quando se instala e fica)
e, não existindo, traz consigo
uma perda irreparável para
tudo o que for do coração,
não existe a menor nem
a mais remota chance
de um dia se acabar
um romance e por
fim o sujeito que
antes morria de
paixão e arfava
sem razão por
cantos e por
recantos e
disparos
decidir
enfim
se re
apai
xon
ar
.

AO AMOR, TUDO O QUE LHE CABE

Monday, April 13, 2009

É que eu sinto raiva passageira
Uma espuma que me enche o peito
Feito a saliva dos meus sonhos ruins
Que se beijam aos despudores
Como amantes, lambuzando o leito.
É um roer no ventre e no abraço
Um cansaço, o impulso de chamar-lhe nomes
Disfarçados em meus versos de querer tão bem.
É uma lama que dilata aos poucos
E me ocupa a mente, inunda ouvidos
Pra depois, na boca, ser areia.

É claro que a amo, mas não é só:
É a saudade de sentir-lhe inteira
Com a vontade de partí-la em cacos.

AQUÁRIO

Tuesday, March 17, 2009

Quase nunca eu choro
Sempre seco
Seco fora
Água dentro
Gasta do represamento
Feito alma parada
Bóia o meu sentimento
Sinto muito, nada sinto.
Vez em quando em quando
Jogam pedra
Pedra jogam
Água adentro
Causa um leve agitamento
Leve, pouco
Pouco leva
Nada mexe
Nem se agita a alma parva
Pouco lava
Fora a pedra
E o resto
que é mais nada.

ESTRANGEIRO

Monday, February 23, 2009

Vem pra cá
Distante não faz calor
Tão longe estás, amor
Tão longe de se tocar
Traz pra mim
Um pouco de aflição
Arpejo e uma canção
Que eu só sei amar assim
Vou chorar
Prometo me entristecer
Pra ninguém mais me querer
Até ver você chegar
Se no fim
Barulho pra me acordar
Teu choro pra misturar
Na água que sai de mim
Deixe estar
Nunca sei o que dizer
Se você aparecer
Me ocupo em te amar.

MEU CAMPO DE GIRASSÓIS

Saturday, January 17, 2009

Até o dia em que saiu nu e não encontrou ninguém na rua. Ninguém. Decepcionado com a falta do reboliço que pretendia causar, caminhou pela vizinhança em busca de testemunhas. Caminhou quilômetros sem encontrar ninguém pelo caminho. O sol não agredia sua pele, mas chegou a pensar que teria escolhido um bom calçado se soubesse que enfrentaria tamanha caminhada. “Não, que eu esteja nu até a planta do pé”, e não mais considerou a idéia.
Chegou à outra ponta da cidade e lá, como cá, não havia ninguém. Gritou, chamando nomes aleatórios na esperança de que alguém confundisse o chamado com algo importante e desse as caras na rua. Mas, das casas ao redor, ele só recebia de volta o silêncio inerte das portas fechadas. Aquela indiferença mais o intrigava que o incomodava e, por produto inesperado daquele silêncio, surgiu uma sensação intensa de que estava sendo desafiado. “Não é possível que não me vejam aqui nu em pêlo”, pensou sorridente, “estão a me pregar uma peça.” E, como se estivesse numa brincadeira de esconde-esconde, começou a revirar cada canto da cidade. Invadiu casas, olhou embaixo das camas e dentro dos armários, abriu gavetas e revirou malas, explorou latrinas e fornos. Entrou em cada casa existente na cidade e não encontrou um par de olhos que se dignasse a presenciar sua nudez.
Irritou-se. Que brincadeira era aquela? Quem haveria de ter lhe adiantado os passos do insulto nu e avisado a tudo e a todos que escondessem suas vistas? Terminava de confeccionar sua lista de suspeitos quando se deparou com a única casa da cidade que ainda não tinha revistado.
A porta desta, como das outras, estava entreaberta, como se os seus ocupantes tivessem batido em inesperada e não planejada retirada. Repetiu a revista que tomou quase todo o seu dia e, uma vez mais, deu-se com uma casa desabitada. Nem as fotos estavam dentro de seus porta-retratos. Até os espelhos haviam fugido das paredes. A solidão que habitava era tamanha que, quando viu que amanhecia e resolveu voltar para casa, teve que olhar para baixo para ver o próprio corpo nu e recordar como era a forma humana que esteve buscando desde o dia anterior.
Chegou em casa e vestiu seu melhor traje: um terno herdado do pai falecido havia 3 semanas. Juntou o que pode em duas malas e partiu, decidido a deixar pra trás a cidade deserta que o deixara sozinho. Feliz por não ter que se despedir de ninguém, abriu a porta de casa. Sua viagem, no entanto, durou apenas três passos além da porta de casa. Ao abrir a porta que revelava a rua, deixou as duas malas que carregava caírem num soco surdo no chão da varanda, sem saber se ria de nervoso ou se gritava de alegria. Na calçada, enfileirados, todos os habitantes da cidade estavam nus, deitados no chão, com suas barrigas voltadas para o sol que se colocava alto no céu, como que para observar satisfeito seu campo de girassóis libidinosos.
O homem deu os três únicos passos que haveria de dar para fora de casa e, derrotado, fraco e envergonhado, afrouxou a gravata e abriu o primeiro botão da camisa, preparando-se para ficar admirando aquela paisagem eternamente.

 
VIVER DE BRISA - by Templates para novo blogger